Espaço JG Número 1 – O Grande Colisor de Hadrons

26 09 2008

Salve rapaziada.

No começo do Muito Horrorshow, um dos meus projetos iniciais era ter escritores convidados para colaborar e participar do blog.

Depois de um ano de postagens, parece que isso finalmente vai acontecer.

A partir de hoje (se tudo correr bem), em todas as sextas-feiras, o meu amigo pirata Jonis (www.jonis.carbonmade.com) irá destilar palavras por aqui. Não sei o tema, o estilo e o tamanho. Isso irá caber totalmente a ele, a criação é livre!

Aproveitem e tenham todos uma ótima leitura! E lembrem-se: toda sexta-feira é dia de pirata. Uma boa pedida para você começar o seu final de semana.

Beijos,

Brandão – Muito Horrorshow!

No iPod toca: Cadilac – Roberto Carlos

O tempo lá fora é de: frio.

Lá vai:

O Grande Colisor de Hadrons

por João Guilherme Pires

E não é que ele funcionou?

E não é, também, que os pessimistas estavam certos? Pois é. Duas décadas de espera, bilhões de dólares em investimento, era a primeira vez que o homem estava realmente próximo de desvendar os mistérios do surgimento do Universo. E, num instante, estava tudo acabado.

As chances eram ínfimas, tipo como ganhar na Mega Sena, diziam os cientistas. Só que sempre tem neguinho que ganha na Mega Sena. E aqui, novamente, a improbabilidade se confirmou. Criamos o tal do buraco negro que engoliu a Terra.

Imagina então como foi, no mesmo milionésimo de segundo, 6 bilhões de almas chegando para fazer o check-in no Céu.

Filas, desordem, indignação. “Que tipo de Paraíso é esse!”. “A gente paga o dízimo em dia, colabora com a Campanha do Agasalho, faz tudo direitinho, pra isso?”. “Isso é um absurdo! Chamem as autoridades!”. Tinha até uns irlandeses detidos por tumultuar a área dos banheiros querendo dar uma mijada.

Bom, de Deus então nem se fala. Estava fulo da vida. E, pior, nem tinha em quem descontar. Nada de dilúvio, pestes, pragas, nada disso. Todos estavam mortos. Nem preciso dizer que, depois de declarar estado de alerta, convocou uma reunião de emergência.

– Mas que porra é essa?
– Senhor, é que…como vou dizer…enfim, os homens acabaram com a Terra. – disse o Ministro da Habitação Celeste num tom seco.
– Eu sei.
– Eles construíram uma parada sinistra aí, querendo descobrir a razão de tudo e o mistério da vida.
– Isso eu também sei.
– E aí que foi feixe de próton pra tudo quanto é lado, energia aqui, massa ali e pum: criaram um buraco negro que engoliu a Terra.
– Meu querido eu sei de tudo. Quero saber é: por que ninguém fez nada?
– Senhor, o tal Colisor era na Suíça.
– Idaí?
– Os chocolates de lá são os seus preferidos.
– Estou cercado de incompetentes!
– Pegaram a gente de surpresa também.
– E a moçada do Apocalipse? Era só causar uma revelação, um sinal do Juízo Final pra não deixar neguinho apertar o botão pô!
– Bem que tentamos. Mas o Fome tá num job na África, o Guerra tá num projeto no Iraque, o Morte não atendeu o celular.
– E o Violência?
– Ta de férias no Rio
– Bilhões de anos jogados no lixo! Agora me fala, vou ter que fazer de novo? Sete dias ralando, fazendo plantinha, riozinho, montainha, cêis acham que eu num tenho o que fazer?
– É, falha nossa.
– Vão todos para o Inferno!
– Lá também está lotado, Senhor.
– Aaaaaaargh!

Mas eis que a reunião é interrompida por um rapaz barbudo, cabelão, trajes bem largos – uma alma hippie talvez? -, que entrou na sala. Sem bater.

– Pai!
– Que?
– Relaxa, eu tenho uma versão aqui em back-up. Foi pouco depois da virada pra 2000. Não sabia se você ia querer miar o planeta e tal.
– Você salvou?
– Salvei.
– Boa filhão!
– Outra coisa, me empresta o carro?
– Ok, mas põe gasolina.
– Multiplico o restinho da reserva.
– Tá.

Demorou alguns séculos, mas a situação acabou se organizando. Claro que ainda há ajustes a serem feitos no Sistema Público do Céu, principalmente na área de Lazer – são trilhões de almas sem absolutamente nada para fazer durante a eternidade. “As coisas estão melhorando”, dizem eles. Normal. A Esperança morreu por último, mas morreu também.

E dizem que Higgs, o dono do Bóson que deveria ser encontrado, foi visto num decadente boteco celeste, completamente embriagado e balbuciando:
– Não fui eu, não fui eu.

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